Ou o que aprendi na primeira oficina de texto que ministrei. ❤

Parece frase de um livro autoajuda que pede socorro na banca da esquina. Não se engane, só parece. Colocar o sentimento como motor de uma oficina de escrita foi o desafio que propus para quem queria perder o medo da página em branco.

O que eles não sabiam é que o medo sempre vai existir da primeira letra até o ponto final. Isso porque as frases são ingratas companheiras de viagem. Você nunca sabe para onde vai. Como consolo, sabe que nunca será o mesmo de quando começou um texto.

“Vem comigo que te explico no caminho”.

Quando planejei a oficina, os exercícios e o conteúdo, também não sabia ao certo onde iria chegar. No fim, inúmeros foram os destinos, as memórias e as trocas. Foi transformador encarar todo mundo como página em branco.

Compartilho alguns dos textos que ganharam vida ao longo das 3 horas de curso. O tamanho da gratidão não cabe na palavra obrigada. Leia. 😉

O que não quero me esquecer

Não quero nunca me esquecer de onde vim. Da barriga que nasci e da família que eu escolhi. Sim, porque eu escolhi vir a este mundo, naquele dia, mês e ano.
Eu escolhi ter aqueles pais, essa vida, essas alegrias e sofrimentos. Talvez o mundo não me quisesse, mas eu, atrevida, vim mesmo assim.
Não quero nunca me esquecer da primeira vez que vi meu marido. Porque era pra eu estar ali, naquele lugar e naquela hora. Prefiro esquecer algumas dores de amor que tive antes desse dia, mas sei que elas me prepararam pra chegar até ele.
Não quero nunca esquecer como foi e tem sido ser casada, amar e ser amada, ter uma família, uma casa.
Não me canso de dizer, ainda que ninguém queira escutar, do quanto ter uma cachorra fez de mim uma pessoa melhor. Aprendi o amor incondicional de mãe, entendi melhor meus pais. Não quero nunca esquecer o olhar dela.
Como pode um animal te tocar tanto, ensinar tanto, amar tanto? Tudo “tanto”. Ela é intensa, ou tudo ou nada, ou calmaria ou furacão. Tão diferente de mim. Tão parecida comigo.
Nunca nesta vida quero esquecer que escolhi viver a vida que estou vivendo.

Lívia Murta — É gestora de projetos, mãe da Chica e adoça todas as palavras com pitadas de sorriso no canto da boca.

A BANDA

Grande concerto
Faltavam 2 meses
Ensaiávamos dia e noite
Inventávamos coreografias
Decorava solos
Chorava pela disciplina
O maestro gritava
E eu achava impossível
Minha boca secava
Os lábios ardiam em brasa
Até que chegou o dia
Arrepios
Passava mal
Tremia
Eu não sou capaz
O teatro lotado
Mil pessoas me olhavam
Os olhos queriam me devorar
O maestro me ensinou
Que se encarassemos
Passava
Trabalho
Agora é diversão
No fim todo mundo chora
E o maestro dizia:
Disciplina, sacrifício e trabalho é recompensador.
Uma banda, um som, um só corpo.

Marco Vincit — Designer e já estudou música erudita. Daí vem as doses diárias capazes de misturar cores e sons em tudo que faz. Na palavra? Também.

Encontro

Aroldo acordou pela manhã, tomou café, banho e trocou de roupa esperando que esse fosse um dia inesquecível em sua vida. Ângela estava no trem com borboletas no estômago: “Será que ele vai gostar de mim?”, pensou. Desceu do trem, subiu as escadas e foi à porta principal.
Ela era ainda mais bonita do que ele pensou em todos esses anos. Com olhar feliz e emocionado lá estava sua filha, hoje adulta, que não via desde os quatro anos. O abraço apertado de dois desconhecidos que tinham o maior amor do mundo um pelo outro é o recomeço de uma nova vida que nasce.

Paula Albino — É designer, desenhista e curiosa. Consegue ler nas entrelinhas o que ainda não foi dito. Vidente? Não. É sensível e precisa como o texto pede.

As lembranças do amanhã

As vezes o lembrar traz a dor do querer esquecer, na tentativa de superar. Dor da perda, dor da dor. Uma saudade que começou no dia 27/09/2013. Você ainda era você, mesmo deitada em uma cama de hospital, apenas ao som de uma respiração quase sem força, ainda sim era você. Foram horas intensas e que após 3 dias sem dormir, não de dava conta que já estava a te velar.
Ainda cedo você partiu. Não disse nada com a boca, não disse nada com o olhar. Apenas parou de respirar. Ficou imóvel. Era o momento de receber o último abraço. Era hora de dizer o último até logo, porém, dessa vez não saberíamos quando nos encontraríamos novamente.
Agora sou eu e Bruna. Só sobrou a gente nesse corredor de hospital. Talvez você não saiba o que me sustentou e sustenta até hoje. Sentado no corredor do hospital, pude ver o seu corpo passar, ainda estavam colocando um lençol sobre o seu rosto e na mesma hora me veio o consolo: Jesus também morreu, também foi enrolado em um manto, mas ali não era o fim e sim o começo.

João Marcelo Siqueira — É social metrics e tem a doçura na medida certa. Com pitadas de meio amargo, deixa o texto uma sobremesa incrível.

Vaca

“Vaca!”, ele gritou.
Tereza não conseguia ver sentido naquilo. Como é que um animal tão bonito poderia ser usado como ofensa? Talvez fosse, ela pensou, uma espécie de carma; uma vingança sutil do animal. Também pudera: ofensa é sofrer maus-tratos a vida inteira.

Lucas Diana — É redator e se define como poeta de merda. Bom filho das palavras, sabe a hora certa de trocar as reticências por ponto final.

Lembra?

Lembra das tardes inteirinhas na cama da mamãe? E daquela vez em que a Babi teve que costurar o pé um dia antes de a gente ir pra raia? A gente tinha passado o ano todo esperando pra ver o mar e uma tragédia dessas acontece, logo na véspera. Bom, tragédia é o que eu me lembro que aquilo pareceu. Visão de criança, que bastou duas meias e um saco plástico para transformar o drama em riso.
Lembra também quando a gente ainda dividia o mesmo teto, mesmo sofá, mesmos papos e sonhos? Tudo era desculpa pra gente se amontoar no meu quarto e falar horas a fio. Eu fazia charme, mas era a melhor parte do dia.
E a companhia durante o banho? Lembra disso? A escova de dente esquecida na pia era só mais uma desculpa pra começar qualquer conversa boba. E como não lembrar dos cuidados, conselhos e companhias?
É… Tudo mudou. Talvez a gente tenha crescido e amadurecido.
E o que antes era companhia, virou áudio no Whatsapp. O que era conselho, virou lição de vida e evolução. Mas o cuidado? Esse nunca vai virar saudade.

Marina Dias — Analista de redes sociais, coleciona histórias embaixo dos cachos. Ela sabe como desenhar um final feliz.

E você? Escreve pra quê?
Escreva para matar saudade. Escreva para tatuar memórias. Escreva para ter coragem. Escreva para sentir medo. Escreva para ser você. Escreva para ser o outro.
Escreva.
Até a próxima oficina. 😉

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A oficina de escrita QueroEscrever.txt aconteceu nos dias 1 e 3 de março pelo Plan B U. Comandado por Luana Simonini , publicitária, redatora e contista, o encontro envolveu letras e memórias, despertando, em cada um, o poder de escrever para nunca esquecer de si e do outro.

Fotografia – Leopoldo Rezende